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12/03/2018 / Campo de 11

Família, futebol e Seleção: o amor e as lições comuns à Copa do Mundo

 

Ninguém gosta de futebol por acaso. Claro que se trata de um esporte extremamente apaixonante com todos os aspectos imprevisíveis que nos emocionam de uma forma incrível. Mas não há amor sem influência, neste caso. Todos começamos a assistir futebol por alguém – ou por alguma coisa. Comigo, não foi diferente. Eu cresci ouvindo os relatos emocionantes do meu avô sobre a tragédia do Maracanazzo, em 1950, e a dor do meu pai na sua descrição da eliminação de 82 para a Itália. Cresci, sobretudo, vendo Copa do mundo em família e torcendo para os jogadores do time amarelinho, como minha vó mandava. Eu demorei para entender como um jogo poderia ter impactado de forma tão traumatizante na vida deles. Aquilo me intrigava e, ao mesmo tempo, me apaixonava.

Eu fui entender em 2002. Já completamente tomado pelo prazer que o futebol proporciona, assisti todos os jogos da Copa da Coréia e do Japão. Quem não gosta ou não entende nada de futebol, nunca vai compreender o quão sensacional é ganhar uma Copa do Mundo. Quem não ama futebol por causa de alguém, nunca vai entender como é emocionante comemorar abraçando alguém que você tanto ama. Como é bom vencer algo ao lado de quem só quer te ver vencer na vida.

Em 2002, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Cia me fizeram acreditar que o futebol constrói e destrói traumas. Mais do que isso: o futebol nos faz ter momentos únicos de celebração de amor com as pessoas que mais amamos na vida. Naquele domingo de manhã em Teresópolis, eu ainda não tinha essa noção exata e detalhada de como é legal gostar de futebol por causa de alguém. Mas vencer aquela Copa do Mundo e chorar abraçado com meu pai e meu avô foi a melhor experiência da minha vida.

Naquele dia, eu entendi que os traumas não existem para sempre. Depois daquele domingo, meu avô nunca mais chorou me contando da Copa de 50. Nem quando a gente entrou no Museu do Futebol e ele ouviu pela primeira vez em mais de 60 anos a narração do gol mais triste da vida dele. Já bastante afetado pela doença mais maldita da humanidade, ele me disse, como quem quisesse me tranquilizar de um sofrimento que não era meu: “Têm coisas ruins que acontecem para que outras melhores ainda possam nos surpreender”.

Ele só queria dizer que o Maracanazzo tinha sido foda pra ele. Um dos dias mais tristes e traumáticos da vida dele. Como os gols do Paolo Rossi em 82 foram pro meu pai. A conquista do Tetra, em 94, não apagou isso. Eles ainda remoíam a morte do Senna, outra tragédia traumática para ambos. Mas os gols do Ronaldo em 2002 e a promessa de um neto e filho apaixonado por futebol tinha essa força. O choro e o abraço da família com os três chorando era mais forte que qualquer dor. Esse dia poderia existir para sempre.

Mas o tempo passa, as coisas mudam, o câncer cria novos traumas e o futebol nos entristece ainda mais. Vimos juntos as eliminações de 2006 e 2010. Em 2014, meu avô já não estava mais entre nós, mas antes de morrer dizia que a Copa no Brasil só serviria pro Lula roubar, e que a Seleção não chegaria à final. Ele sempre entendeu muito de futebol e de vida. No fim, o gol de honra no 7 a 1  para a Alemanha foi marcado pelo jogador que ele mais gostava daquele time: o Oscar. E eu sofri demais naquela derrota. Sonhava com um título em casa, para sentir o gosto de gritar de novo ‘É Campeão’ no Maraca abraçado com meu pai, como fora em 2013, na Copa das Confederações. E ainda poderia vingar o Maracanazzo do vovô. Só que não deu. O Mineirazzo foi uma tragédia ainda maior e mais traumatizante.

Mais quatro anos se passaram e a Seleção chega diferente pra Copa da Rússia. Favorita, encorpada, motivada. Temos um treinador de respeito que nos ensina a cada dia o que é a Seleção e como devemos respeitá-la. Ele divide responsabilidades, cria termos, redefine perfis de atletas e nos faz acreditar que a CBF pouco importa quando amamos nosso país em campo. Temos, finalmente, um time jovem, talentoso e de personalidade. Jogadores cobiçados, admirados e extremamente vencedores.

Se eu pudesse pedir uma coisa a Deus para que acontecesse na Rússia, eu certamente pediria que meu avô surgisse, revivesse, sei lá. Só queria que ele estivesse comigo por um dia. Não precisava ser na estreia sofrida contra a Suíça, nem no drama das oitavas, das quartas ou no nervosismo das semis. Eu queria ele na final. Onde quer que fosse. Com quem quer que fosse, mas de preferência meu pai.

E é incrível como eu sei exatamente como ele se comportaria. As coisas que ele diria sobre cada situação, sobre cada jogador, sobre cada oponente. Ele passava longe do previsível, mas me contava tudo. Como se quisesse me ensinar sobre tudo com detalhes e cuidados que só um avô consegue ter.

Eu sei que ele criticaria essa marra do Neymar e a pressão excessiva que alguns comentaristas jogam em suas costas. Sei que adoraria ver o Coutinho, cria do Vasco, vestindo a camisa 11 da Seleção e arrebentando. Certamente, provocaria dizendo que não havia nenhuma cria rubro-negra no time. Até poderia ouvir a resposta com o nome do Renato Augusto, mas retrucaria usando algum argumento raso, mas efetivo para aquele momento.

Eu tenho certeza que ele gostaria de ver o Marcelo dando aqueles dribles arriscados e abusando da técnica em lances capitais. Ele gostava de gente corajosa, de personalidade. Por isso, casou com minha vó. Impossível ele ser crítico do Thiago Silva. Adorava o Monstro como zagueiro e, se o visse chorando em 2014, bradaria: “homem também chora””, como sempre fazia nas festas de família e nas viradas de ano, com os olhos cheios de lágrima. Alguma coisa me diz, também, que o Gabriel Jesus seria seu xodó, e que ele criticaria o Firmino: “Nome de advogado…”.

Infelizmente, o máximo que eu conseguirei vai ser sonhar com meu avô na Copa. E que sejam sonhos longos, repetitivos, diários, se possível. Quem sabe eu não possa contar para ele, a cada jogo, como foi cada gol, cada lance de perigo, cada atuação individual, como eu fazia por telefone quando ele estava no hospital em seus últimos dias. Sem forças pra falar ou agradecer, ele vai sorrir. E eu vou entender perfeitamente o que ele quis dizer, como sempre foi.

Afinal, as dores da morte são e sempre serão incuráveis. Os traumas, a gente vence. Os obstáculos, a gente supera. Mas a saudade ninguém apaga. As lembranças nos povoam e nos fazem crer em dias melhores. E, por fim, o futebol, como NINGUÉM, nos lembra que é capaz de nos proporcionar momentos incríveis e inimagináveis. Que a Seleção e o futebol sigam nos fazendo chorar e sorrir por amor. Nossa família sempre foi unida assim: com a cerveja na mão, a tv ligada e o time amarelinho em campo.

Se o Hexa vier, Vô, pode ter certeza que no apito final eu só pensarei em você. Eu e meu pai vamos nos abraçar e chorar como em 2002. E vamos sentir tuas mãos e teu calor junto. Vai ser o novo melhor dia da minha vida. Vamos, Brasil!

 

 

 

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