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13/01/2016 / Boleiragem Tática

Da Copinha a Guardiola, a importância da tomada de decisão

Por Lucas Imbroinise

Vendo alguns jogos da Copinha é interessante notar como muitos atletas ainda não estão prontos para o futebol profissional de alto rendimento. Desde deficiências técnicas, falta de compreensão tática, entre outros. No entanto, o que mais chama a atenção é a dificuldade dos jovens jogadores brasileiros em tomar decisões. Na Europa, a chamada “tomada de decisão” é uma das teclas mais batidas pelos treinadores, sobretudo com atletas que estão começando sua carreira no futebol profissional – estes, os que apresentam maior dificuldade nesse fator.

Fato é que, por se tratar de um esporte extremamente dinâmico, é preciso destacar que uma boa tomada de decisão pode, sim, ganhar um jogo. Ao mesmo tempo, também é fato que há inúmeras decisões para serem tomadas, o que acarreta numa maior facilidade de acontecerem equívocos. Tomar uma boa decisão nada mais é do que escolher a jogada com maior probabilidade de dar certo. Muitas vezes, inclusive, a decisão é uma escolha acertada do atleta, mas a execução não obtém sucesso. Escolher é bem diferente de executar. Um volante, por exemplo, pode saber o momento certo de virar o jogo, mas pode errar o passe, resultando em um contra-ataque fatal. Ele decidiu bem, mas executou mal.

Na Copinha, tenho observado muita dificuldade por parte dos jogadores em tomar boas decisões. Não sei se tenho assistido poucos jogos, mas até mesmo em atletas de grandes times  tenho percebido essa carência.

Ontem mesmo, estava assistindo um jogo de um time mediano contra um time grande. A segunda equipe jogava com dois meias-extremos, que variavam posicionamento de acordo com o lado da jogada e a subida dos laterais. Em determinado momento, o meia-direita fez a diagonal e recebeu um bom passe do segundo volante. Deu dois tapas na bola e percebeu a defesa adversária em linha, com o centroavante fazendo o famoso ‘facão’. Simultâneamente o lateral passava ao seu lado, livre para receber na linha de fundo. Neste caso, a melhor escolha seria decidir em deixar o atacante na cara do gol. Era um passe de difícil execução, mas a defesa estava em linha, mal posicionada, e as chances dessa jogada obter sucesso eram incrivelmente maiores que enfiar a bola para o lateral.

Ele abriu o jogo no lateral, que levou na linha de fundo, esperou a defesa se recompor…e cruzou na mão do goleiro. Não consegui perceber a reação do treinador, mas é possível que tenha se irritado bastante. Os treinos em campos reduzidos, atividades de intensidade, o famoso “dois-toques”, treinos de contra-ataque tem diversos objetivos principais. Um deles é começar a fomentar na cabeça dos atletas um desenvolvimento maior da capacidade de tomar uma boa decisão. Depois, vem a parte técnica e a execução. Mas poucos conseguem crescer nesse aspecto. E, por isso, chegam ao profissional sem estarem completamente prontos.

Entrosamento e conhecimento dos companheiros

Outros fatores importantes que ilustram bem essa discussão são o entrosamento e as características de cada jogador. Vou usar dois exemplos diferentes. O primeiro também da Copinha. Logo na primeira rodada da fase de grupos da competição, vi um time grande enfrentando uma equipe de menor investimento. Ataque do time grande, o meia-extremo que joga pela esquerda, e tem como um ponto fortíssimo a velocidade, abriu posicionamento e entrou em diagonal em direção a grande área. Mais uma vez, o passe era difícil, pois havia muitos marcadores à frente. Mesmo assim, o meia forçou a bola e lançou-a um pouco mais à frente, pois sabia que seu companheiro iria chegar antes dos marcadores, mesmo com um passe um pouco “longo demais”. Ele não só alcançou a bola, como entrou cara-a-cara com o goleiro e fez o gol.

Depois do jogo, conversando com outro meia do time em questão, questionei-o sobre a jogada. A resposta dele: “A gente treina todo dia com ele (o meia-extremo). Sabe da velocidade e da explosão dele. Quando começa a correr, não tem quem o alcance. Por isso, principalmente nós, os meias e volantes, sabemos que podemos errar, mas sempre errar pra mais. A gente acaba tirando um pouco demais o passe, mas ele sempre chega na frente da marcação. Já virou um costume”, disse. Ou seja, o entrosamento ajuda em tomar boas decisões. Os próprios jogadores sabem que é melhor errar pra mais do que tentar outra jogada, quando o meia-extremo em questão parte em velocidade, pois têm um bom entrosamento e conhecem bem o modelo de jogo da equipe.

Outro exemplo para ilustrar a importância da característica de cada jogador pode ser alguns lances de Özil pelo Arsenal. Diversas vezes, sobretudo em jogos contra times de maior qualificação, o meia alemão se vê na famosa situação do um contra um. Muitas vezes até em contra-ataques de alta velocidade. No entanto, ele sabe que a velocidade e a explosão não são seus pontos mais fortes. E, apesar de ter boa capacidade técnica para executar dribles curtos e rápidos, na maioria das vezes ele sabe que a melhor decisão a se tomar é segurar um pouco a jogada e esperar a subida de mais companheiros ao ataque. Pois as chances são maiores da jogada resultar em um lance de perigo.

Guardiola e as decisões

O próprio Guardiola já falou muito sobre a importância de seus jogadores fazerem boas escolhas. Em um programa recente de televisão, Thierry Henry, ex-comandado de Pep, dissecou resumidamente parte da filosofia de jogo do espanhol: “Ele nos dizia sempre: ‘Eu treino e procuro orientar vocês para fazerem 75% da jogada de forma correta e planejada. Os 25% restantes depende de vocês’”.

Esses 25% eram pura tomada de decisão. É quando Messi recebe a bola na ponta direita e escolhe carrega-la pelo meio e fazer uma jogada individual ou esperar a subida de Dani Alves e deixar o corredor livre, ou quem sabe até tentar inverter o jogo ou chamar um dos volantes para rodar a bola. Não que os 75% anteriores da jogada não dependam de decisões por parte dos atletas. Mas é a parte com movimentos mais coordenados e treinados, como a saída de bola, o posicionamento e a transição ofensiva. A definição da jogada é muito mais subjetiva.

Em outra entrevista, Guardiola disse fazia elogios a Philipp Lahm. Segundo o treinador, poucos jogadores eram, de fato, inteligentes no futebol. Para Pep, Lahm entende o jogo, e o resto não. “Pois ele sabe o momento certo de tomar a decisão certa, independente da posição em que esteja jogando”. Aqui entra em cena o momento, tão importante quanto o fato de escolher bem. Pois é preciso tomar a decisão certa na hora certa, levando em conta o contexto do jogo e da jogada em questão. É claro que pode dar errado, a execução pode ser mal feita e a jogada não prosseguir. Mas, como dito anteriormente, a melhor decisão é aquela com maior probabilidade de dar certo.

Em um esporte com tantas tomadas de decisão, é fundamental ter jogadores acostumados a treinos que estimulem o raciocínio rápido, o pensamento coletivo e, sobretudo, a personalidade na hora de fazer escolhas com e sem a bola nos pés.

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