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20/10/2010 / Campo de 11

Meu time inesquecível – Grêmio de 1995 – por Vicente Fonseca

O Blog tem a honra de receber, no segundo quadro “Meu time inesquecível”, um texto do excelente jornalista gaúcho Vicente Fonseca, correspondente da Gazeta Esportiva em Porto Alegre e editor do blog “Carta na Manga”(http://cartanamanga.blogspot.com).
 
Meu time inesquecível: Grêmio de 1995 – Por Vicente Fonseca
 

Um time de homens. É assim que defino até hoje, em uma curta frase, aquele Grêmio campeão da Taça Libertadores em 1995. Uma equipe formada por alguns jogadores de certo nome, outros que estavam condenados a segundo plano em seus clubes anteriores, além de jovens oriundos das categorias de base do Olímpico. Todos unidos sob o comando do então ascendente Luiz Felipe, que só ganhou o sobrenome “Scolari” quando treinou o Palmeiras, em 1997. Uma equipe que incomodou muitos que preferiam um futebol mais vistoso, mas que – basta deixar o preconceito de lado – tinha muito mais que simplesmente garra e cabeceio.
 
O trabalho feito por Felipão, Fábio Koff e o vice de futebol Luiz Carlos Silveira Martins, o Cacalo, foi de garimpagem. Tinham em Danrlei um goleiro já confiável, convocado a seleções de base e campeão da Copa do Brasil de 1994. Roger, outro remanescente daquela conquista, foi mantido na lateral esquerda. No meio, Carlos Miguel e Emerson, mais dois da base, despontavam como grandes meias do futebol brasileiro. Junto desta boa gurizada, era preciso acrescentar experiência e peças certeiras. Tudo com um caixa não muito grande, incomparável ao que tinha o Palmeiras, rival naquela Libertadores, com o apoio da Parmalat.
 
 
Para a lateral direita, foi trazido Arce, jovem camisa 2 da seleção paraguaia. Sua qualidade no apoio seria contrabalançada com perfeição pelo estilo mais marcador de Roger pelo outro lado. Para a zaga, veio Adílson, que chegou a jogar na seleção brasileira no início da Era Parreira. Já ganhou a braçadeira de capitão, tal a liderança, tanto técnica como de vestiário. A seu lado, o jovem Luciano seria substituído pelo paraguaio Rivarola, de imposição física e de bola aérea, que casou muito bem com o estilo de Adílson. Para fortalecer a defesa, Dinho, bicampeão do mundo com o São Paulo, seria o cão de guarda. Apesar de às vezes exagerar nas entradas, era muito mais que um “brucutu”: raramente errava um passe, lançava com qualidade e fazia gols com arremates potentes e precisos. A seu lado, Goiano, reserva nas conquistas do time de Telê, esquecido no Remo. Revelaria-se grande batedor de faltas, como Dinho e Arce.
 
Houve um problema antes da estreia: Emerson lesionou-se gravemente em jogo do Campeonato Gaúcho, contra o modesto Brasil de Farroupilha. Vagner Mancini foi trazido para o seu lugar, mas nunca se firmou, e o jovem Arílson, também prata-da-casa, foi promovido a titular. Para o ataque, a dupla estava escolhida: Magno, do Flamengo, seria o companheiro de Jardel, que jogaria enquanto Nildo, herói da Copa do Brasil do ano anterior, se recuperava de lesão. Todos sabem o fim da história: Paulo Nunes, trazido como contrapeso na negociação com Magno, firmou-se e formou, com o eterno camisa 16, um dos últimos grandes casais-20 que o futebol brasileiro viu.

Recupero a história de como este time foi montado porque é incrível como as peças se encaixam com perfeição, um quebra-cabeças em azul, preto e branco. O Grêmio jogava em um 4-4-2 clássico: dois zagueiros, dois laterais, dois volantes, dois meias, dois atacantes. Mas havia variações, claro, como qualquer time bem formado. Arce, no apoio, era facilmente convertido em meia – embora não precisasse chegar à linha de fundo para efetuar cruzamentos precisos. Roger era um lateral das antigas: convertia-se em zagueiro quando Arce apoiava, mas subia também. A jogada do gol do título da Copa do Brasil de 1997, vale lembrar, foi com o apoio dele pela esquerda.

Era no meio-campo, porém, que estava o grande segredo daquele time: a movimentação constante de Goiano, o “motorzinho”: marcava os meias adversários, cobria os avanços de Arce, aparecia no ataque, fazia gols de falta. O típico “jogador moderno”. Curiosa era a forma com que Felipão ajeitou o time com dois meias canhotos: Carlos Miguel caía mais pela esquerda, tabelando frequentemente com Roger; Arílson, centralizado, jogava com Miguel quando estava no meio, mas com Arce, Goiano e Paulo Nunes quando estes apareciam. Era, portanto, peça fundamental na engrenagem. Com sua movimentação, o Grêmio tinha criatividade pelos dois lados do campo e pelo meio. E, claro, ambos combatiam a saída de bola adversária. Grêmio que é Grêmio marca muito.
  

 

 
 
 

O Grêmio campeão da América em 1995 jogava num 4-4-2 clássico: dois zagueiros, dois laterais, dois volantes, dois meias e dois atacantes.

 

Organizado e dinâmico, ficava “fácil” para este time dar aquele show de gana que marcaram as jornada dos torcedores gremistas nos anos 90. O Grêmio de 1995 era um time raçudo, de temperamento forte (mas frio quando preciso), maduro, equilibrado em todos os sentidos. Era um time técnico, embora não brilhante. Mas jogadores como Arce, Adílson, Dinho, Emerson, Paulo Nunes e Jardel fizeram grande sucesso em outras partes, mostrando que aquela equipe montada por Felipão era muito mais que “esforçada”, como o então técnico da seleção Zagallo preconceituosamente chegou a taxar.

No ano seguinte, mais uma prova da qualidade daquele grupo foi o título brasileiro. Sem Arílson, o time ganhava um meia destro, Emerson, que fazia a mesma função que o antecessor. Sim, aos que não lembram, o volante do time de Parreira em 2006 começou como um meia técnico, habilidoso e artilheiro no Grêmio. Naquela conquista sobre a Portuguesa, Paulo Nunes passou a centroavante, e Zé Alcino fazia a jogada de flanco. O Diabo Loiro jogava tanto que, mesmo fora de seu habitat natural, deu show e foi o artilheiro daquele Campeonato Brasileiro.
 

 
 
 

Em 1996, Emerson era o meia e Paulo Nunes o centroavante.

 

Quase todos os jogadores daquele time foram capitães do Grêmio em algum momento. Não lembro de Arílson e Jardel, apenas, vestindo a braçadeira. Um singelo dado, que pode parecer coincidência, mas que relata com fidelidade um time cheio de lideranças positivas. Como eu dizia lá no início, um time de homens.

 
 
 ESCREVEU VICENTE FONSECA
 
 
 

 

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4 Comentários

Deixe um comentário
  1. Sancho / out 20 2010 22:11

    Fonseca, sempre tive a impressão -e a memória pode ser traiçoeira- que se tratava de um falso 4-4-2. De fato, Roger jogava muito mais preso que Arce, na marcação.

    E não era Arílson o responsável por cair às costas do lateral-direito adversário?

    Abraço.

  2. Zé Eduardo Morais / out 21 2010 1:08

    Em 1995, o Grêmio atacava num 4-3-3 praticamente, com Paulo Nunes e Carlos Miguel fazendo jogadas de ponteiro.

    O Emerson estreou no Grêmio 2×0 Corinthians pela Copa do Brasil de 1994 na ponta-esquerda. Era o meia-direita, camisa 10, daquele time. Em 1996, chegou a jogar algumas vezes na lateral-direita.

    Aliás, outra característica era a capacidade de improviso. Vários jogadores chegaram a atuar – e bem – improvisados: Arce (de segundo volante e meia-direita), Adíson (primeiro volante), Dinho (segundo volante), Goiano (primeiro volante, meia-direita, lateral-direito e zagueiro central), Arilson (meia-direita e lateral-esquerdo) e Carlos Miguel (segundo atacante e lateral-esquerdo).

    A liderança do grupo de 1995/96 era tão latente, que vários daqueles jogadores tornaram-se treinadores: Arce, Adílson, Luciano, Dinho, Gélson, Goiano, Vágner Mancini, Mauro Galvão, Saulo e Nildo

  3. Vicente Fonseca / out 21 2010 1:09

    Sim, Sancho, o Roger ficava mais preso. O erro que se comete quando se fala no falso 3-5-2 é que se diz que ele não avançava. Subia assim, mas menos. Quando isso ocorria, Dinho ficava na cobertura e Arce, não raro, compunha o meio. Roger passou a quase não subir quando jogou como zagueiro mesmo, naquele 3-5-2 do Tite, entre 2001 e 2002.

    O Arílson trocava bastante de posição com o Carlos Miguel, mas era mais o Miguel que caía pela lado esquerdo, combinando com o Roger quando ele subia. Se tu te lembrar de alguns gols daquele time (o segundo dos 5 a 0 sobre o Palmeiras, em que o Arílson arrematou da meia direita, e o terceiro e quarto desse mesmo jogo, que surgiu de jogadas do Miguel pelo flanco esquerdo), isso fica facilmente constatado.

    Grande abraço, e agradeço mais uma vez ao Lucas pela oportunidade de escrever sobre o time mais marcante não só meu, mas de toda uma geração de gremistas.

  4. Vicente Fonseca / out 22 2010 13:11

    Bem lembrado, Zezinho. Vários viraram técnicos mesmo.

    E olha a gauchada invandindo o blog do Lucas! hdssdhsd

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