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29/03/2017 / Boleiragem Tática

Brasil 3 x 0 Paraguai – Exigência e soluções no primeiro tempo, brilho no segundo

Como era de se esperar, o Paraguai veio ao Brasil para marcar. Desde os primeiros minutos de jogo, ficou claro que a tarefa principal dos comandados de Arce era essa: marcar e, quem sabe, através de um jogo reativo, assustar. Chegaram a roubar bolas na intermediária e causar certo susto no time de Tite, que tinha dificuldades sobretudo na construção da jogada na primeira metade de jogo. Mas não demorou para o time encaixar, a intensidade voltar, os movimentos naturais e planejados aparecerem e o jogo se decidir.

No segundo tempo, facilidade. Show particular de Neymar com seu repertório interminável de dribles e arrancadas em velocidade. Triangulações envolventes com superioridade numérica e circulação de bola. Zagueiro conduzindo para quebrar linhas, volante acertando todas as coberturas. O Brasil, hoje, é um time pronto  e encantador. Mas ainda assim, passa por alguns momentos de exigências, mesmo contra adversários mais fracos.

Dificuldade na construção e perseguições individuais

O Paraguai iniciou a partida num 4-4-1-1 híbrido que, com a bola, muitas vezes virava um 3-3-3-1. Sem a bola, duas linhas de quatro com preocupação em fechar espaços e limitar o poder de atuação dos meias brasileiros. Na primeira linha de defesa, encaixes individuais dos laterais em Neymar e Coutinho, com longas perseguições quando os extremos brasileiros conduziam por dentro. Com isso, espaço aberto pelas pontas para as subidas dos laterais ou as progressões em diagonal dos volantes, sobretudo Paulinho.

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Repare na imagem acima a movimentação de Coutinho, que conduziu a bola saindo da ponta para o meio, abrindo espaço para a progessão de Paulinho. O lateral-esquerdo paraguaio Alonso o acompanhou. O volante Perez também perseguiu Paulinho. Outro detalhe é o passe vertical de Marquinhos, quebrando linhas, demonstrando a dificuldade na transição inicial ou construção brasileira.

O gol como desafogo e a inteligência de Firmino:

Coutinho se movimentava, mas tinha dificuldades de criar espaços e combinar com Paulinho, Fagner e Firmino. Tentava entrar em diagonal, e não conseguia. Tentou receber a bola por dentro, para girar e acelerar a condução, mas foi desarmado. Entrelinhas, sempre com Alonso no seu encalço. O jeito foi partir para o 1 x 1. Recebeu na ponta, se livrou de Alonso, desacelerou, ganhou novamente no mano a mano e tabelou com Paulinho para marcar o gol do desafogo.

Detalhe para a movimentação de Firmino no gol de Coutinho. O atacante brasileiro, que tem dificuldades para atacar o espaço, puxa a marcação do zagueiro, abrindo o espaço exato para onde Coutinho faz a diagonal e recebe o lindo toque de Paulinho para fazer um golaço.

Show no segundo tempo e Thiago Silva quebrando linhas

O segundo tempo foi de brilho, dribles, arrancadas, golaços, infiltrações, triangulações, intensidade. O Paraguai não resistiu e sucumbiu aos pontos fortes da Seleção de Tite e da magia de Neymar. Paulinho, com posicionamento mais agudo hoje, era muitas vezes o primeiro a subir a pressão na zaga paraguaia, pisou na área adversária em praticamente todos os ataques e foi decisivo com duas assistências. Casemiro, monstro das coberturas e do primeiro passe, com mais uma atuação soberba.

Destaco também a atuação de Thiago Silva. Durante 45 minutos, o camisa 14 foi responsável por manter a capacidade que Marquinhos teve em alguns momentos do primeiro tempo de ser mais agressivo com a bola e ajudar na construção ofensiva quebrando linhas. Marquinhos fez isso com passes verticais. Thiago foi além. Conforme costuma pedir Tite, conduziu a bola em velocidade para ultrapassar e quebrar as linhas de marcação paraguaias. Sempre muito bem coberto por Casemiro, que compunha a primeira linha quando o zagueiro subia.

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Thiago ultrapassando a linha de meio de campo com condução de bola vertical em velocidade, quebrando as linhas de marcação paraguaias e sendo mais agressivo com a bola. Diante de equipes bem fechadas, é ótima alternativa.

 

24/03/2017 / Boleiragem Tática

Uruguaio 1 x 4 Brasil – Poder de reação, modelo de jogo e estratégia

 

Na entrevista coletiva após a goleada desta quinta-feira, em Montevidéu, Tite fez questão de exaltar o desempenho e a consciência coletiva da importância do mesmo para a equipe. Mais do que os gols e o placar elástico, o treinador da Seleção e seus comandados ficaram extasiados por terem conseguido, novamente, ter grande desempenho, desta vez fora de casa e depois de sair perdendo no placar.

A felicidade geral se explica: o bom desempenho é fruto da consolidação do modelo de jogo do time, somado ainda às estratégias específicas adotadas em cada partida e o poder de concentração do time. Mesmo depois de tomar um gol em uma falha individual, o time manteve o padrão, o modelo e a estratégia. Sem se abater, soube se impôr e neutralizar os principais trunfos do rival.

Pressing uruguaio e dificuldade de transição

Os primeiros minutos foram complicados para a Seleção. Apesar de esperar um time vertical e com muita força nas bolas longas, o Uruguai atacou muito pelo chão, com intensidade no início de jogo. Sem a bola, o time subia as linhas e pressionava a saída de bola brasileira. Com os laterais errando passes curtos e a pressão alta do adversário funcionando, o Brasil teve dificuldades na primeira fase de transição.

Até levar o gol, o time brasileiro só tinha conseguido uma transição boa: em arrancada de Neymar. Depois que Cavani abriu o placar, o time se achou. Soube retomar a confiança e ter concentração para impor o seu jogo. Aos poucos, as triangulações e o jogo apoiado foram aparecendo. Em noite inspirada, Neymar usava as conduções e dribles em velocidade da esquerda para o centro, em diagonal, para quebrar linhas e criar novas alternativas de passe. Foi, durante boa parte do primeiro tempo, a principal alternativa de jogo do time.

Perde-pressiona

As marcas da Seleção começaram a aparecer aos poucos. Depois de mostrar que não havia sentido o gol e um poder de reação excpecional, o Brasil se impôs. Com jogo apoiado, as transições aconteciam com circulação de bola e boas triangulações. Sem a bola, o perde-pressiona já funcionava bem. Numa dessas, Sánchez foi pressionado ao recuperar a posse e errou o passe. Caiu logo nos pés de Neymar, que partiu da esquerda para o meio e achou Paulinho livre para acertar um chutaço: 1 a 1.

Posse de bola, imposição e movimentação: controle absoluto

Depois do gol de empate, o Brasil assumiu as rédeas da partida. Seguindo à risca o modelo de jogo, circulava bem a bola no campo de ataque, criando triângulos de opções de passe pelos lados e alternando o ritmo de velocidade das jogadas. Na esquerda, ora Marcelo construía por dentro, deixando Neymar aberto para tentar o enfrentamento no mano a mano, ora aberto, com Neymar flutuando por dentro. Do outro lado, Coutinho flutuava mais e aproveitava os espaços entre as linhas da defesa uruguaia. De ambos os lados, opções de tabela , triangulações, jogo apoiado e alternância de ritmo, marcas do time.

Legenda: Os triângulos em ambos os lados, sempre com um apoio extra, para a necessidade de circular a bola até o outro lado e tentar outra jogada.

Com posse de bola e jogo apoiado, o Brasil construiu mais, e ainda assim, infiltrou pouco. Teve Firmino jogando entrelinhas, buscando às costas dos laterais, combinando bem com os meias. Mas pouca infiltração e até profundidade. No último terço do campo, o Uruguai mantinha seu sistema de marcação com encaixes individuais, sofrendo com os dribles dos extremos brasileiros, que várias vezes ficaram no mano a mano com seus marcadores.

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Os encaixes individuais da marcação uruguaia. Destaque para Coutinho buscando os pequenos espaços entre o lateral e o volante, e Neymar flutuando entrelinhas, com Firmino saindo da área para a ponta-esquerda.

Firmino de pivô, a estrela de Paulinho e a tentativa de mudança de Tabárez

Não demorou para a virada acontecer. Depois de circular a bola da direita para a esquerda, Coutinho fez boa jogada e usou Firmino como pivô. O atacante do Liverpool segurou bem, fez boa finta, girou e finalizou com precisão de esquerda. No rebote, Paulinho, o volante que infiltra e pisa na área adversária que todos clubes queriam ter, virou o jogo.

Como o jogo direto com Rolán por dentro não funcionava, Tabárez mexeu. Abriu o seu segundo atacante pela direita, centralizou Sánchez e tentou transicionar o jogo de forma mais vertical, roubando mais bolas na intermediária defensiva. Não deu muito certo. O Brasil valorizava bem a posse de bola e se movimentava com inteligência.

Bolas longas pros dois lados

Tabárez fez mais duas alterações: Stuani e Abel Hernández em campo. A média de altura do time uruguaio subiu, assim como o número de bolas longas. Quase sempre em diagonal, de uma lateral para a ponta oposta, o time tentava acelerar o jogo e brigar pela segunda bola já mais perto do gol adversário. O Brasil se defendeu bem e, com Fernandinh0 em campo, conseguiu povoar mais o meio de campo e o setor onde caiam a maioria das segundas bolas.

A reação de Tite foi usar a mesma arma. Pedindo uma saída mais rápida desse início de pressão uruguaia e uma ocupação maior do campo de ataque, orientava os defensores a saírem por bola longa para Firmino. Por mais que o atacante da Seleção não seja dos mais altos ou mais fortes, conseguia brigar e atrapalhar os zagueiros uruguaios na disputa. Assim, o time ainda tinha a chance de pegar uma segunda bola no ataque e sair da pressão subindo as linhas com rapidez. Numa dessas ligações diretas, Neymar saiu cara a cara com Martin Silva e fez um golaço de cobertura: 3 a 1.

Jogo decidido, ainda teve espaço para mais um gol do volante Paulinho, aproveitando ótimo cruzamento da direita de Daniel Alves para fechar a goleada e a bela atuação da Seleção.

16/03/2017 / Boleiragem Tática

Análise de jogo: Universidad Católica 1 x 0 Flamengo – Taça Libertadores

Muito além da velha máxima no futebol “quem não faz, leva”, o duelo entre a Universidad Católica e o Flamengo expôs a importância do poder de definição em competição tão acirrada como a Libertadores e a necessidade de ter concentração e planejamento em bolas paradas, que decidem jogos e campeonatos há décadas.

Apesar de ter proposto o jogo durante todo o primeiro tempo e boa parte do segundo, dominando as ações durante a maior parte do jogo com sobriedade e personalidade, o Flamengo vacilou em detalhes que custaram caro. Além de erros individuais nas saídas de bola e problemas com o jogo aéreo adversário, o time perdeu o jogo numa bola parada de falta lateral, que contou com bloqueio digno de basquete para o atacante Santiago Silva cabecear sozinho e decidir o jogo, que esteve nas mãos do time rubro-negro por muito tempo.

A opção por Marcio Araújo

Zé Ricardo montou o time para encarar a Católica de acordo com a necessidade de enfrentar o adversário específico. Para isso, mudou o esquema inicial para o 4-1-4-1, com Marcio Araujo entre as linhas, Arão saindo pela direita, Diego e Rômulo mais centralizados e Éverton à esquerda. Além de facilitar a saída de bola e ganhar poder de roubada de bola no meio, a opção pelo camisa 8 se explicava principalmente quando o time não tinha a bola.

Isso porque a Católica baseia seu jogo na capacidade de armação do volante Kalinski e, sobretudo, na intensidade e movimentação do trio de meias, em especial Diego Buonannotte. O argentino baixinho se desloca com muita rapidez, buscando os flancos e a famosa entrelinha, trocando de posição, abrindo espaços e girando o jogo na última fase de construção. Com Marcio Araujo o perseguindo pelo campo, o Flamengo conseguiu neutralizar boa parte da efetividade do principal jogador do time chileno.

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No frame acima, linha de 4 e Marcio Araujo  no encaixe individual a Buonanotte, que já busca desmarcar-se pela entrelinha. À esquerda, Noir alarga o campo, dando amplitude ao time.

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Acima, mais uma das vezes em que Buonanotte buscou a movimentação para se desmarcar e receber a bola com mais tempo e espaço. Dessa vez, na ponta-direita, e novamente com Marcio Araujo o perseguindo, saindo de sua posição original para fazer a pressão na ponta. Perceba Fuentes se projetando por dentro – acompanhado por Trauco.

Fla com pressão alta, Católica na bola longa

Na tentativa de se impôr e ter o controle do jogo para conseguir imprimir o seu modelo de jogo, o Flamengo variou a marcação em blocos médio e alto. Por vezes pressionou a bola já no último terço de campo, obrigando a Católica a sair com bolas longas. Normalmente, os chilenos fazem isso nos primeiros minutos de jogo, quando são pressionados. A bola sai por um dos laterais e, com uma bola longa em diagonal, ele busca o extremo oposto ou até o centroavante Santiago Silva.

A movimentação dos meias da Católica

Um dos pontos fortes do time chileno, a movimentação de seus meias trouxe problemas ao Flamengo, tanto no primeiro como no segundo tempo. Incansável, Buonanotte buscava brechas de espaço a todo o tempo. Quando percebi dificuldades na transição, recuava para buscar o primeiro passe e acelerar o jogo. Quase sempre com Marcio Araujo a sua cola. O volante rubro-negro conseguiu 3 desarmes.

maxbuo2Repare na imagem acima: como de costume, Kalinski iniciou a transição e direcionou a construção para o lado do campo. Buonanotte saiu do meio para a ponta direita, arrastando com ele Marcio Araujo e abrindo um espaço no meio, às costas de Rômulo, rapidamente preenchido por Noir, que saiu da ponta-esquerda para ajudar na construção por dentro. Fuentes vai receber a bola e ter, pelo menos três opções de passe.

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Na imagem acima, já no segundo tempo, Católica ataca pela ponta-direita. Como de costume, jogada começando com Kalinski, que chega a ser pressionado por Diego, mas acerta o passe para Espinoza, o lateral-direito que subia ao ataque. O extremo abre o corredor para que a jogada prossiga no ponto futuro. No meio, Buonanotte busca às costas de Marcio Araujo, para, em seguida, se movimentar rumo à direita e servir como opção de tabela um-dois.

Fla propôs o jogo, mas definiu pouco

Mesmo com a posse de bola, ocupação do campo ofensivo com boa parte dos jogadores e volume de jogo através de variações nas transições, troca de passes e movimentação intensa, o Flamengo definiu pouco. Chegou a ter oportunidades de finalização, mas sentiu falta de um maior poder de invasão da área adversária e, sobretudo, definição de jogada mais perto do gol.

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Na imagem acima, com os meias saindo da ponta para ajudar na armação por dentro e Diego bem marcado, Marcio Araujo tem dificuldades de iniciar a transição ofensiva. Pará é a opção mais próxima à frente, mas já pode ser pressionado por seu marcador no encaixe invidivual. Entra em cena a leitura de jogo de Rômulo, que recua para servir de opção e tentar mudar o lado da construção. Laterais alargam o campo e tem o corredor para explorar. Ainda assim, Fla teve dificuldades de acelerar o jogo pelo lado e criar chances reais de gol.

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No frame acima, mais um momento de dificuldade do Fla criar um perigo de gol. Católica se fecha na marcação mista com encaixes individuais, negando espaços para os jogadores do Flamengo. Guerrero sai da área para abrir espaços, mas não houve infiltração com efetividade. Arão e Éverton na linha da grande área, dando profundidade à organização ofensiva. Rômulo acaba por voltar ao jogo para os zagueiros e recomeçar a construção. O espaço vazio em amarelo era para ser preenchido por Trauco, que poderia ter dado mais amplitude para o time servido como ótima opção de passe.

Dificuldades na transição? Passes verticais para quebrar linhas e buscar brechas

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Com algumas dificuldades na criação e transição para atacar o adversário, o Flamengo passou a  chegar com mais perigo através da construção de trás, arma que o time costuma utilizar pela agressividade que o zagueiro Rafael Vaz tem quando tem a bola. Com Diego buscando a entrelinha e Éverton alargando o campo, através de um passe vertical e rápido, Vaz achou Diego, tirou a bola da pressão, acelerou o jogo e criou uma oportunidade pela esquerda. Observe Trauco por dentro, quase como um segundo atacante e, do outro lado, Arão infiltrando em busca de profundidade.

2º tempo decidido na bola parada e expulsão

O Flamengo voltou para o segundo tempo mais ofensivo e efetivo. Buscando mais o gol, acelerando mais a transição. Sempre usando Guerrero para segurar com a parede ou escorar de primeira e facilitar a subida do time. Com a entrada de Berrío e Gabriel, o time ficou mais leve e se soltou ainda mais com tabelas e velocidade pelos flancos. Parecia o momento perfeito para buscar o gol e controlar de vez o jogo. Aaté que veio uma flta boba cometida por Diego.

A cobrança lateral ensaiada contou com a técnica de bloqueio, muito utilizada no basquete, para que Santiago Silva ficasse livre para cabecear e abrir o placar. Logo em seguida, Berrío foi expulso e o Fla se perdeu. Zé Ricardo até tentou ensaiar um abafa com Damião e Guerrero juntos, mas não tinha como.

14/03/2017 / Boleiragem Tática

Com inversões frequentes, Mirassol vai bem pelos flancos

Uma das sensações do interior neste início de temporada no futebol brasileiro, o Mirassol tem como ponto forte as jogadas pelos flancos. Organizado no 4-2-3-1, o time é muito ofensivo e trabalha bastante com transições em velocidade, à base de passes rápidos, quase sempre buscando as pontas. Para isso, laterais com muito ímpeto ofensivo e que sobem juntos, alargando o campo no segundo e terceiro terço.

Juntamente com os extremos, os laterais buscam jogadas em velocidade para achar o fundo e buscar a invasão da área pelos cantos. Quando há dificuldade em um lado, a alternativa é mecânica: a inversão de lado da jogada com viradas de jogo precisas. O lateral oposto é quase sempre o alvo. Nas outras vezes, quando eventualmente está se posicionando por dentro, o meia-extremo busca o posicionamento aberto para receber a virada de jogo. Para facilitar esse processo, o time joga com meias com os pés trocados: Rodolfo, canhoto, na direita, e Welinton Junior, destro, na esquerda.

Por dentro, o experiente Xuxa tem a função de flutuar entre as linhas rivais e buscar espaços para passes verticais e infiltrações. O meia, no entanto, tem pouca mobilidade e velocidade, dificultando  as jogadas que furam a defesa por dentro, apesar da boa capacidade de finalizações de média e longa distância. Por isso, o próprio Xuxa acaba buscando as pontas também, criando os triângulos com os laterais e extremos.

O time costuma jogar com um atacante de referência que não é centroavante de ofício. Normalmente é Zé Roberto, ex-Bahia, que faz esse papel. Meia atacante de origem, ele dá mais mobilidade e cria espaços às costas dos laterais e zagueiros rivais, atuando praticamente como falso-nove. Zé Raphael, do Coritiba, é outro que pode fazer a função e vem sendo usado com frequência. Recuando, eles criam espaço para Xuxa infiltrar e os extremos buscarem mais as incursões em diagonal para invadir a área. Ainda assim, as melhores jogadas do time acontecem pelos flancos.

Sem a bola, o time usa a marcação zonal, com encaixes pontuais dependendo da transição do adversário. Um defeito é a falta de intensidade dos extremos na marcação. Contra times que usam laterais mais incisivos, o Mirassol costuma ter problemas. Os dois volantes, por não serem tão altos, sofrem um pouco também na disputa da primeira bola de lançamentos longos ou tiros de meta do adversário. E a zaga, sem Edson Silva, perde muito em segurança e acaba ficando mais exposta.

 

10/03/2017 / Boleiragem Tática

Abel transforma Fluminense com detalhes e confiança

O Fluminense é um time muito mais competitivo em 2017, e boa parte disso se deve ao trabalho de Abel Braga. Apesar da manutenção de boa parte do time, o treinador conseguiu dar outro espírito aos jogadores, além de, é claro, as mudanças na forma do time jogar. Organizado no 4-1-4-1 que varia para 4-3-3 conforme a posição de campo e a posse da bola, a equipe apresenta alternativas interessantes.

A começar pela transição ofensiva. A primeira fase de construção da jogada conta com a famosa “saída com três” trabalhada na verdade com 4 jogadores, utilizando a boa leitura de jogo dos volantes Orejuela e Douglas, conforme pode-se perceber na imagem abaixo.

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O time procura circular a bola com passes curtos e acelerar o jogo no momento certo, seja com projeções de Douglas ou passes verticais de Sornoza.

As diagonais longas de Sornoza

O equatoriano que joga com a camisa 20, aliás, é responsável por outra boa arma de transição rápida do time: ou lançamentos em diagonal com profundidade. Na ponta-direita, o time vem contando com a velocidade de Wellington, que costuma chegar antes da cobertura nas bolas em velocidade, seja pelo chão ou pelo alto. Na esquerda, Richarlison é pura explosão e força física com arrancadas impressionantes. Essa mistura não poderia ser mais propícia a lançamentos em velocidade vindo de trás. E eles vêm pelo alto, dos pés de Sornoza.

Movimentação e confiança de Dourado

Duramente criticado pela torcida no ano passado, Henrique Dourado é um dos destaques do time em 2017. Abel parece ter resgatado sua motivação e, acima de tudo, sua confiança. Alguns gols e boas atuações também têm papel determinante nesse processo.

 

 

 

 

vimentação e confiança de Dourado

08/03/2017 / Boleiragem Tática

Atlético-PR mostra virtudes e trunfos, mas segue sem controlar o jogo

O excelente primeiro tempo do Atlético-PR nesta quarta-feira, diante da Universidad Católica, pela primeira rodada da fase de grupos da Libertadores, na Arena da Baixada, deixou claro os pontos fortes da equipe de Autuori. No entanto, os 45 minutos seguintes escancaram os principais defeitos do time: não saber controlar um jogo ganho e dar chance ao azar mesmo diante de seus domínios.

Mas vamos aos pontos positivos primeiro…

Lucho como ponto de equilíbrio

Partindo do 4-2-3-1, Autuori organizou um time muito técnico do meio pra frente. Na volância, dois homens com bons passes e excelente leitura de jogo para fazer a saída de bola. Na linha de três armadores, dois jogadores mais agudos e Carlos Alberto, mais cerebral, buscando passes mais verticais. Diante da Católica, o veterano sofreu com faltas e não foi bem, dificultando a verticalização do jogo. Na frente, Pablo é quase um falso-nove, um centroavante com muita mobilidade, que gosta de cair sobretudo às costas do lateral-direito rival.

No entanto é com Lucho Gonzalez que o time cresce e se equilibra. Atuando praticamente como um box to box, o argentino oferece diversas opções para a saída de bola e busca às costas do marcador, facilitando o desafogo e levando o time à frente com passes curtos. Jogando entre os meias e os volantes rivais, é o responsável por simplificar a transição rubro-negra e aproximar a defesa dos meias de ligação.

Nas imagens abaixo, Lucho se posiciona entre as linhas do sistema rival, facilitando a transição e criando novas linhas de passe vertical para simplificar a transição.

 

Laterais agudos e amplitude com a bola

Tanto Nikão como Gedoz, sobretudo no primeiro tempo, se movimentavam para da extrema ponta para o meio quando a bola saía pelo seu respectivo lado. Com isso, se aproximavam de Carlos Alberto para armar o jogo e circular a bola por dentro, além de abrir os corredores para os laterais atleticanos, notoriamente ofensivos.

Dos dois lados, o time ganhava boa amplitude de campo com Jonathan e Sidiclei espetados. Quando bem acionados, eram ótima arma para construção de jogadas rápidas pelas pontas. Uma baita inversão de jogo de Thiago Heleno achou Jonathan livre na direita e assim nasceu o primeiro gol do jogo.

Movimentação intensa do quarteto ofensivo

No penúltimo e no último terço de campo, Autuori quer ver um time intenso e móvel. Por isso, é comum ver Carlos Alberto trocando de posição com Gedoz, ultrapassando Nikão, interagindo com Pablo. O camisa 8, aliás, é pura
movimentação. Sente-se falta, inclusive, de um pouco mais de comportamento de homem de área, para segurar mais os zagueiros e auxiliar na compactação ofensiva segurando a bola no terço final.

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Na imagem, Carlos Alberto tem diversas opções de passes curtos para fazer a circulação da bola e fazer o time entrar no terço final de campo com boas alternativas.

No segundo tempo, com as entradas de Douglas Coutinho e Rossetto, o time ficou mais leve e Pablo foi para a ponta-esquerda. Ainda assim, faltou aquele passe mais vertical, que quebra linhas e acha o atacante dentro da área.

Faltou, ainda mais, assumir o favoritimo de dono da casa e controlar o jogo, trabalhando a posse, propondo o jogo sem se sentir acuado e incomodado dentro de seu estádio.

Sem a bola, afobação e problemas no jogo aéreo

Apesar de ter ido bem nos primeiros 45 minutos de jogo, a defesa atleticana deixou a desejar no segundo tempo. Ao contrário da boa organização que vinha sendo exemplo desde a partida de volta contra o Capiatá, voltou a demonstrar afobação e desorganização em situações específicas, como por exemplo o jogo aéreo defensivo, exatamente como havia sido na partida de ida da fase anterior, na mesma Arena da Baixada.

Autuori tentou reforçar o setor tirando o corinta Otávio para colocar mais um zagueiro e ganhar estatura na primeira linha. A alteração só atraiu mais o time chileno, que acabou empatando o jogo em 2 – 2 e escancarando os problemas do Furacão.

 

13/02/2017 / Boleiragem Tática

As melhores facetas do novo São Paulo de Ceni

O São Paulo de Rogério Ceni já mostra ao mundo o que pode alcançar. Com modelo de jogo bem definido, equilíbrio entre os setores e uma busca incessante por intensidade, as notícias para a torcida são-paulina são bem animadoras. Montado no 4-3-2-1, o time valoriza a posse de bola sem perder a verticalização desde os primeiros passes, lá atrás, com Maicon e Rodrigo Caio.

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A saída de bola, aliás, vem se caracterizando como um dos trunfos dessa equipe. Sidão é um goleiro que se notabilizou por usar e abusar do jogo com os pés – treinado e incentivado por Fernando Diniz, nos tempos de Audax. A bola dificilmente sai pelo alto. Normalmente, os zagueiros abrem o posicionamento, “empurram” os laterais e João Schmidt, o volante de ótimo passe e dono de uma das melhores tomadas de decisões do time, aprofunda sem posicionamento entre os dois defensores, criando uma linha de três para facilitar a saída.

Mais à frente, alinhados, Thiago Mendes e Cícero entendem a importância da movimentação para a bola circular. Com dinâmica, buscam linhas de passe e contam, ainda, com a proximidade dos meias e laterais. Opções de passes curtos e verticais não faltam para fazer o jogo fluir. E se o adversário sobe a pressão na bola, paciência para rodar a bola ou inverter o lado da jogada. Para isso, fundamental ter volantes com boa técnica e agilidade no jogo de cintura.

A grande peça do time, no entanto, aparece a partir do segundo terço de campo. Cueva é intenso, habilidoso, veloz e inteligente. Tem uma facilidade absurda para se desmarcar e receber o passe vertical dos zagueiros ou volantes. Ele é quem, normalmente, quebra as linhas e acelera a verticalização do jogo. Seja se inserindo pelo meio, abrindo corredor para Junior Tavares e se aproximando de Thiago Mendes e Luiz Araújo, seja pela ponta, buscando o 1 x 1 contra o lateral-direito.

Cueva é a capacidade de improviso do time. O criador de jogadas improváveis, o cara que muda o ritmo da transição e surpreende o adversário. Na goleada sobre a Ponte, aproveitou os deslocamentos de Gilberto e cansou de deixar o atacante na cara do gol, quebrando as linhas de defesa do adversário. Com rapidez, cria e aparece para finalizar. Não à toa é um dos melhores jogadores em atividade no Brasil.

Do outro lado, Ceni aposta em Luiz Araújo. Garoto de grande potencial, sabe buscar a linha de fundo e tem como diferencial o drible em velocidade. Com muita marcação no peruano, é ótima válvula de escape, sobretudo em inversões de jogo e passes em velocidade. Tem feito boa parceria com Bruno.

Com novas e interessantes facetas, o São Paulo de Ceni começa a engrenar seguindo seu modelo de jogo: valorização da posse de bola, circulação da mesma e movimentação sem deixar de ser vertical. A proximidade dos jogadores, sobretudo a partir do segundo terço de campo, facilita os passes curtos em busca da infiltração ou da situação de 1 x 1. É um time a se observar e admirar em um futuro breve.

09/02/2017 / Boleiragem Tática

Análise de jogo: Colo-Colo 1 x 1 Botafogo

Dizem que na Libertadores é preciso saber sofrer. O Botafogo soube. Mesmo levando um gol c0ntra logo aos 2 minutos de jogo, a equipe comandada por Jair Ventura não abriu mão de sua estratégia inicial para ter o timing certo do jogo. Mesmo após levar o gol, não se desorganizou e manteve a compactação característica de seu treinador. Com Montillo e Pimpão à frente, João Paulo à esquerda e Bruno Silva à direita, Aírton e Lindoso eram os dois volantes do 4-4-2 flat alvinegro.

E é verdade que o Colo-Colo dominou os primeiros minutos. No seu habitual 3-4-2-1, com alas bem espetados, a bola rodava com facilidade entre os meias e alas chilenos. Muita amplitude e profundidade, além dos passes curtos valorizando a posse de bola que faz do time uma das forças do futebol local. Bola longa só para inverter o lado da jogada, buscando a situação do 1 x 1 ideal para quem pressiona o adversário com o apoio da torcida.

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Sem a bola, o time de Jair Ventura esbanjava organização. Os meias-extremos fechavam as linhas de passe em diagonal e pressionavam os alas quando esses tinham a bola. No miolo central, Aírton e Lindoso também fechavam os espaços  e não davam muitos espaços.E, assim, o Bota isolava o perigo e, aos poucos, saía para o jogo.

Não demorou para Bruno Silva começar a procurar ultrapassagens pelo lado direito e, enfim, se posicionar como um meia-direito, sempre atento às subidas de Véjar. João Paulo buscava mais verticalização pela esquerda, até para segurar mais Figueroa. E cabia a Montillo recuar como meia-armador para fazer com que o time tivesse alguma construção de jogo. Quando o time chileno subia as linhas, o jeito era usar e abusar das bolas longas, para fugir da pressão. Pimpão, como pivô, é um ótimo atacante de beirada. E o time sofreu um pouco mais…

Na volta do intervalo, o Botafogo voltou bem. Novamente configurando o 4-2-3-1, João Paulo começou a buscar mais a parte central do último terço do campo, abrindo corredor para Victor Luís subir. Esbanjando força física e ótimas decisões de passe, Victor Luís se transformou em um dos melhores em campo.

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A entrada de Guilherme no lugar de Aírton deu mais amplitude ao time pela esquerda. Logo depois, foi a vez de Roger, fazendo com que o time ganhasse profundidade e um pivô para ajudar na transição ofensiva. Ademais, Pimpão voltaria para seu habitat natural, a ponta-direita, mantendo o 4-2-3-1, agora com Bruno Silva mais recuado, como volante.

Foi justamente em uma jogada que começou com Guilherme no lado forte do time no jogo, passou pela finalização de Roger e terminou com o rebote atento de Pimpão que o Botafogo empatou o jogo e se classificou.

Méritos para todo o time, que soube sofrer, se entregar e lutar pelo empate. Méritos para Jair, que organizou o sistema defensivo esperando um time de panorama e, mesmo diante de outro completamente diferente, não teve pressa para atropelar o timing certo das substituições.

 

 

02/02/2017 / Boleiragem Tática

Análise de jogo – Fla 3 x 0 Macaé: o papel de Mancuello e a ótima organização ofensiva rubro-negra

No papel, a diferença entre Flamengo e Macaé já era grande. Foi a bola rolar para todos perceberem o abismo geral que separa as duas equipes. Fisica e tecnicamente, os jogadores do Flamengo estavam bem acima da média normal das equipes de menor expressão no Rio. Taticamente, o jogo se desenhou da mesma forma. Com o seu habitual 4-2-3-1, Zé Ricardo insistiu com Mancuello aberto à direita, opção que já tinha adotado em alguns jogos de 2015 e na estreia da temporada, a goleada contra o Boavista por 4 a 1. Novamente, escolha acertada.

Canhoto e comprometido taticamente, Mancuello costuma ter boa tomada de decisão com e sem a bola. Com a posse, era peça importante na primeira fase de construção de jogo do Flamengo. Diante de um Macaé retroativo, marcando abaixo da linha do meio-campo, os volantes rubro-negros tinham tempo de sobrar para pensar o jogo e explorar a ótima mobilidade do ataque. E neste cenário, entra o argentino. Movimentando-se da direita para o centro, ele abre o corredor para Pará, em grande fase, jogar. Acompanhado por um jogador mais lento (Romarinho), o lateral-direito costumava receber os passes de Arão, Rômulo e Diego com liberdade para chegar à linha de fundo.

Pivô de Guerrero:

Pelo porte físico e a ótima técnica, Guerrero sabe, como poucos, escorar uma bola vertical vinda da defesa ou fazer a famosa parede de pivô para esperar a compactação ofensiva do time. Contra o Macaé, o peruano fez isso mais de uma vez, facilitando a transição direta defesa-ataque e ajudando na mobilidade do time.

pivoguerrero

Guerrero faz o pivô em passe de Arão. Com Diego recuado, Mancuello vira aprofunda o jogo, abrindo novamente espaço para Pará às costas de Romarinho. À esquerda, Everton é opção de tabela para o peruano e Trauco, espetado, amplia o jogo rubro-negro. Se Guerrero segura a bola, Arão consegue infiltrar, criando mais uma alternativa.

 

Pressão no portador da bola:

Sem a bola, ainda no primeiro tempo, o Flamengo deu show também na transição defensiva. Marcando em blocos médios e baixos, com Diego dando os primeiros combates na saída de bola adversária, os volantes rubro-negros se revezavam entre a pressão no portador da bola e a cobertura para fechar as linhas de passe do portador pelo meio.

No segundo tempo, com um jogador a mais, o Flamengo conseguia pressionar ainda mais o portador da bola, flutuando a zona de marcação de lado para lado, dependendo de onde estivesse a bola.

À esquerda,no primeiro tempo, Macaé faz o seu jogo transicional pelo meio, sempre passando pelos pés do inteligente Zotti (10). Flamengo procurava pressionar o portador da bola e cobrir possíveis passes verticais. Pontas do Macaé tentavam fazer o facão por dentro, mas sem linhas de passe, não receberiam a bola. No frame, Arão e Diego pressionavam a zona da bola, enquanto Rômulo quebrava uma possível linha de passe vertical pelo meio. À direita, já no segundo tempo e com um a mais, a superioridade numérica do Flamengo na marcação ficou ainda mais evidente.

Amplitude e mobilidade:

Com boa parte do segundo tempo com um a mais, Flamengo teve liberdade e espaços de sobra para exercer seu ótimo jogo transicional com mobilidade, profundidade e amplitude.Os dois zagueiros, que são agressivos com a bola e sabem dar passes verticais e fazer bolas longas para mudar o lado do ataque, abriam posicionamento para participarem da primeira fase de construção do ataque junto com os volantes. Arão, quase sempre ele, era quem aprofundava posicionamento como um “terceiro-zagueiro momentâneo”. Assim,  a saída de bola sempre tinha linhas e opções para o primeiro passe.

Do meio pra frente, mobilidade intensa. Éverton combinando bem com Diego, Guerrero e abrindo corredor para Trauco jogar. Do lado direito, Mancuello chamando o jogo por dentro e se aproximando de Guerrero, com Pará voando no corredor. Diego, o principal articulador do time, tentava colocar Rômulo e Arão mais no jogol, recuando para receber o passe de costas e estimulando os dois volantes a infiltrarem.

amplitude

No flagrante acima, Rafa Vaz faz a saída de bola pela esquerda cheio de alternativas para passe. Trauco recua para criar linha, Diego também se aproxima alinhado com Rômulo, criando duas opções de passe simples para o zagueiro. Do outro lado Arão vira terceiro zagueiro, Réver sobe pela direita, empurrando Pará quase como um ponta, com o corredor livre, já que Mancuello fez a diagonal para o meio, se aproximando de Guerrero.A curiosidade da jogada é Éverton, que está quase na ponta direita, tentando confundir ainda mais a marcação em linha do Macaé.

mobilidade

Agora, quem aprofunda posicionamento para buscar primeiro passe é Rômulo, entre os dois zagueiros. Observem, porém, a quantidade de jogadores rubro-negros no campo de ataque. São 7, movimentando-se de forma compacta para receber o passe e tramar combinações diretas à meta adversária.

28/06/2016 / Boleiragem Tática

A aula tática de Conte e o interessante modelo de jogo italiano

Quem viu a vitória da Itália sobre a Bélgica, ainda na primeira fase da Euro-2016, já se encantava com o modelo de jogo preparado e executado por Antonio Conte. Um time extremamente compacto, sobretudo na transição defensiva, marcando por zona e exercendo pressão sobre a bola para recuperar a posse. Com ela, amplitude, profundidade e, acima de tudo, opções de passes, jogadas e triangulações. Futebol absolutamente moderno com traços clássicos, como, por exemplo a utilização de uma referência ofensiva.

Contra a Espanha, na vitória por 1 a 0 nas oitavas de finais da competição, o time comandado pelo ex-treinador da Juventus e futuro técnico do Chelsea, provou, mais uma vez, como pode ser encantador ter um modelo de jogo bem definido. Organizada mais uma vez no 3-5-2, a Azzurra começou a partida pressionando na marcação, tirando a saída de bola da Espanha com pressão na bola e um encaixe perfeito, praticamente tirando Sergio Busquets da transição ofensiva espanhola. E sem Busquets, tal qual o Barcelona, fica muito difícil para a Espanha conseguir propor o jogo e simplesmente JOGAR.

E tome-lhe transição direta, lançamento longo…Com superioridade numérica na defesa pelos três zagueiros e a organização defensiva, a segunda bola normalmente era da Itália.

Nas vezes em que conseguia fazer a transição com linhas de passe e triangulações com sucesso, a Espanha não tinha infiltração. Do meio pra frente, o jogo não fluía, as tabelas não funcionavam e os espaços eram cada vez mais escassos. Mérito da ocupação defensiva italiana e do balanceamento das linhas, sempre focando a pressão no lado onde estava a bola, procurando superioridade numérica e quebra das linhas de passes. Silva, por vezes, tentava jogar entre as linhas, como Messi fazia no Barcelona de Guardiola, mas sem sucesso.

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Em ambas as situações, é fácil perceber a superioridade numérica dos italianos e a pressão na bola. Na primeira imagem, Silva se desloca para buscar espaço, mas é rapidamente pressionado. Na segunda, Iniesta vira o jogo para tentar sair da pressão, e ela já volta logo em seguida. Quando a jogada muda o lado, a marcação italiana se desloca rapidamente, impedindo novos espaços para os espanhois triangularem e acelerarem o jogo.

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Com a bola, organização ofensiva na transição italiana. Os volantes e zagueiros com a missão de pensar o jogo e tomar a melhor decisão para o passe ou lançamento. Perceba, agora, a quantidade de opção que De Rossi tem. Laterais afundados no campo de ataque, dando mais amplitude para o time. Parolo sobe para jogar nas costas dos volantes espanhois. E Pellé, como referência, segura um zagueiro e, ao mesmo tempo, dá profundidade para a transição do time inteiro.

A importância da referência ofensiva:

Pellé está longe de ser craque. Mas tem porte de centroavante e inteligência. Sabe, como poucos, fazer a famosa parede, segurar a bola e facilitar a transição do time todo.Quando ele é acionado como pivô, os alas ganham tempo para subir e servir como opção pelas pontas. Éder recebe normalmente espaço para ganhar bolas escoradas e os volantes podem infiltrar com mais facilidade. Na jogada do frame acima, Pellé escora para Éder, que abre o jogo com De Sciglio livre na ponta para cruzar. Quase sai o gol. Na falta que originou o gol de Chiellini, é o mesmo Pellé fazendo o pivô, esperando o time “subir” e sofrendo a falta de Sergio Ramos.

Além disso, em jogos contra times que alternam a pressão na marcação, a figura de uma referência ofensiva que possa ganhar bolas no alto e segurar a transição é fundamental. A Espanha, por exemplo, marcou pressão alta durante várias partes do jogo, obrigando, muitas vezes, os italianos a fazerem bolas longas. Em grande parte delas, Pellé ganhou dos zagueiros. Ele é parte de um modelo de jogo que vem sendo treinado, aperfeiçoado. Isso é parte fundamental de todo o contexto.

Como os espanhois melhoraram no segundo tempo:

Sem espaços para trocar passes efetivos no campo de ataque e com o tempo se esgotando, a paciência foi acabando na hora de ficar girando o jogo o tempo inteiro para os espanhois. Alba tentava ganhar amplitude, forçando subidas e entradas em diagonais nas costas de Bonucci.Mas as melhores jogadas saíram por triangulações com passes rápidos no meio. Iniesta deixou Aduriz em ótimas condições de marcar no fim do jogo. A melhor forma de sair da pressão, é com tabelas rápida e passes de primeira. Para isso, é fácil adivinhar a necessidade de jogadores rápido e extremamente técnicos. Mas nem assim funcionou. Palmas para a Itália, que soube neutralizar uma das equipes que melhor sabe propor o jogo no futebol mundial sendo extremamente aplicada em seu modelo de jogo.